08/04/2007 20:42
MEALHEIRO
Meu avô
a camisa por cima da ceroula
no mourão
da porteira do curral
de pau a pique
cheirando a estrume
Contando
os bezerros
novos
das vacas paridas
Minha avó
no santuário da capela
o rosário de contas
de capim santo
nas mãos devotas
Nos terços
nas novenas
de maio
o mês das flores
As espigas
de milho
verde
bonecando
nos roçados
Os algodoeiros
casulando
As ovelhas
malhando
na sombra
das quixabeiras
O rio
A cheia
A água
barrenta
da correnteza
transbordando
pelas vazantes do rio cheio
Os sapos
os cururus
cantando
dentro das noites
empoçadas
As tanajuras
Esvoaçando
na luz
das lamparinas
As flores
do mato crescendo
pelos caminhos orvalhados
rescendendo
Os meninos
gordos
de terra
sob a chuva
sob o inverno
se banhando
As veredas
trilhadas pelos preás
Os ninhos
dos concrizes
balançando
na copa das braúnas
As asas
dos urubus
pairando
paradas
no céu
encandeando
A barra das madrugadas
O aboio dos tangerinos
As alpregatas
de meu avô
arrastando
nas lajes do alpendre
do mundo
de minha infância.
JOSÉ BEZERRA GOMES
enviada por Ronaldo Seridó
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